Livro: Ensaio sobre a Cegueira – José Saramago

Oi gente! Beleza?

No começo do ano, bem no começo do blog, eu fiz a indicação desse livro. E agora chegou o momento de dizer que sim, esse livro é MARAVILHOSO!

Ensaio sobre a Cegueira – José Saramago

Companhia das Letras, 1995


Ensaio sobre a Cegueira, é aquele tipo de história que rouba teu chão. José Saramago ganhou Prêmio Nobel pra você ter uma ideia de como ele é bom. Em 2008 fizeram o filme baseado no livro que foi dirigido pelo nosso parça BR Fernando Meirelles. 

Eu assisti ao filme primeiro, depois descobri que era um livro. Terminei de ler o livro semana passada e assisti ao filme novamente. Assim, se você for só assistir ao filme, beleza mas se você se interessar em ler o livro antes, você vai se decepcionar com o filme porque eles pecaram muito em quesito informações relevantes e diálogos marcantes. Fora isso, a atuação está maravilhosa e claro, vamos tirar o chapéu para Julianne Moore que MANO DO CÉU: atriz excelente.

Saramago é um escritor português e o livro é meio cansativo às vezes porque ele escreve de uma forma muito louca! hahaha. Não sei se todos os escritores portugueses escrevem assim mas ele coloca acentuação aonde bem entende, não usa o travessão pra dividir as falas dos personagens,  às vezes não tem uma vírgula, etc… Gente, sério, tem que ler com muita atenção porque se não você se perde, você não sabe quem falou aquilo, ou se é um pensamento ou se é uma observação do narrador; mas de qualquer forma, em alguns momentos você vai ter que voltar e reler algum trecho pra entender direito o que tá rolando na história.

Algo muito interessante, é que o autor não deu nomes aos personagens, eles são descritos por alguma característica marcante, como: A mulher do médico, o médico/doutor, o garotinho estrábico, o velho da venda preta, a rapariga dos óculos escuros, o primeiro cego e a mulher do primeiro cego. Isso do começo ao fim da história e todos esses personagens citados acima pertencem ao grupo principal que nos ensinará grandes lições.

Tudo começa quando um cara fica cego do nada no meio de um cruzamento no centro da cidade. O coitado ainda tem seu carro roubado pela suposta alma bondosa que se prontificou a levá-lo até em casa. Esse primeiro cego vai até ao oftalmologista mas os exames não mostram nenhuma anomalia, não tem nada de errado com os olhos dele e o mais estranho: a cegueira é descrita como uma densa luz branca.

O problema é que um por um vai cegando, a suspeita de ser contagioso faz com que o governo coloque os “infectados” em quarentena. O que não vale de nada porque TODOS ficam cegos – exceto a mulher do médico.

A mulher do médico é do tipo guerreira, que faz qualquer coisa para proteger e ajudar. Ela é a única que tem vista em meio ao caos, ela vê a degradação, a luta pela sobrevivência, o ser altamente racional se tornar o mais irracional – porque não dizer animal – possível.

Quando a cegueira pega a todos, incluindo as autoridades e não há mais governos as pessoas da quarentena começam a passar privações, pois não há quem traga comida e um lugar que cabia 100 pessoas tinha mais de 300.

Algumas pessoas são capazes de fazer qualquer coisa pra conseguir o que quer, mesmo que para isso ela tenha que cometer atrocidades, maltratar, abusar, humilhar… Novidade? Não, não. O lugar da quarentena (que era um antigo hospício) não era mais cuidado pelo governo e não havia mais soldados vigiando, lá dentro havia pessoas que esperavam a cura da cegueira e que tivessem -no mínimo- comida, já que os modos básicos não existiam mais, como por exemplo: as fezes e urinas eram feitas em qualquer lugar, relações sexuais sem compromisso mesmo em um compromisso; e como é de se imaginar, sempre tem um espertinho que se acha o bonzão. Quando eles percebem que não há mais ajuda vinda de fora, alguns cretinos roubam a ultima comida recebida e guardam em sua ala, quem quiser comer tem que pagar com tudo de valor que tiver, relógios, pulseiras…

“Pode ser que a humanidade venha a conseguir viver sem olhos, mas então deixará de ser humanidade, o resultado está à vista, qual de nós se considerará ainda tão humano como antes cria ser…”

Aqui começa um ponto que mostra como o ser humano é esquisito. Tá todo mundo preso, Tá todo mundo cego, então o quê eles vão fazer com o dinheiro????? Nada. E esse é o primeiro ponto fraco do humano. O segundo? Sexo. Quando a comida que foi comprada com dinheiro acaba  e ninguém tem mais nada de valor, a nova forma de pagamento é sexo.  Detalhe: a ala que roubou a comida é formada somente por homens e estes querem saciar suas necessidades naturais. Imagine você mulher ter que se rebaixar a esse ponto, imagine você homem ter que “liberar” sua esposa, imagine você pessoa de bem saber que a comida que lhe sacia a fome só está ali porque mulheres foram abusadas e machucadas por caras sem noção.

“É dessa massa que somos feitos, metade de indiferença e metade de ruindade”

Essa é a cena mais horrível, a descrição do espaço, das pessoas que estavam ali, do mundo civilizado e do mundo que agora viviam, dos homens que queriam manter a dignidade, dos que não estavam nem aí… Quando eu li essa parte eu fiquei muito mal, foi muito bem escrita.

“E o que é que vocês fariam se eles, em vez de pedirem mulheres, tivessem pedido homens, o que é que fariam, contem (…) Aqui não há maricas, atreveu-se um homem a protestar, Nem putas, retorquiu a mulher que fizera a pergunta”

No final, depois de algumas discussões e moralidades, as mulheres acabam indo mas o recado foi deixado: “lembrem-se da moralidade e da dignidade quando comerem mais tarde”, e uma das mulheres que foi, já era meio velha e teve o azar de ter com um cara muito mal… ela morreu. Todos se alimentaram mas nenhuma palavra foi dita referente a forma como a comida foi adquirida ou da morte dessa mulher.

A mulher do médico que era a única a enxergar, resolve que as coisas tem que mudar. Então, ela mata o chefão da ala que  estava obrigando às outras pessoas a fazerem atos como o citado no parágrafo anterior. Uma guerra se inicia e vira uma loucura, um monte de cegos sendo pisados e mortos em meio ao desespero, o prédio começa a pegar fogo e os que conseguem fugir ficam mais sozinhos ainda, sendo que o mundo fora da quarentena está tão ruim quanto lá dentro.

Nessa parte da história vemos a luta pela sobrevivência, o poder do instinto, o amor em meio ao caos; algumas outras cenas fortes ainda acontecem como por exemplo: um homem que acabara de morrer sendo comido por uma matilha de cães. Mas tem cenas bonitas, como o cão das lágrimas, que quando a mulher do médico sente-se desgastada por ter que fazer o impossível pelos que tem olhos mas não veem, o cão lambe suas lágrimas e acaba se tornando o guia e protetor do grupo.

O final da história não irei contar, ficará a dúvida se eles voltam a enxergar ou não, se eles sobrevivem ou não…  É uma história muito rica em detalhes, vale muito a pena ler o livro! 

“Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos”

“É necessário sair da ilha para ver a ilha, não nos vemos se não saímos de nós”

 

 

Comments

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3 thoughts on “Livro: Ensaio sobre a Cegueira – José Saramago

  1. Eu nunca li o livro. Estava na minha lista até eu precisar ver o filme na faculdade e ai não animei a ler…
    A verdade é que eu nem sequer terminei de assistir. Eu tenho uma facilidade grande pra me ver dentro da história junto com as personagens e fiquei extremamente incomodada quando a “humilhação sexual” começou. Já tinha ficado perturbada antes disso, inclusive. Entendo que é a premissa da história, fazer a gente refletir, sentir mesmo… Mas, não dei conta. Não sei como meu instinto de sobrevivência reagiria a uma situação assim. Talvez, eu deixasse a sobrevivência para os mais fortes…
    ps: Gostei que você contou coisas que eu não cheguei a ver porque, apesar de todo o nervosismo, eu estava curiosa.
    Beijos

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    Paloma Silva Reply:

    Minha irmã não conseguiu terminar de assistir o filme também…
    E eu acredito na teoria de que a gente nunca sabe da força que tem, até que a única opção é ter que ser forte, mesmo que essa força seja ficar na sua; se você conseguir terminar de assistir o filme, assista! kkkkk
    Ah, o livro é muito cheio de detalhes, Saramago é ninja hahaha
    Beijooos

    [Reply]

    Paloma Silva Reply:

    Minha irmã não conseguiu terminar de assistir o filme também…
    E eu acredito na teoria de que a gente nunca sabe da força que tem, até que a única opção é ter que ser forte, mesmo que essa força seja ficar na sua; se você conseguir terminar de assistir o filme, assista! kkkkk
    Ah, o livro é muito cheio de detalhes, Saramago é ninja hahaha
    Beijooos

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